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Estratégia & Negócios

Entre o céu e o inferno (económico)

13 Dezembro 2021

Portugal atingiu os 70% da população vacinada antes do previsto. Este é um facto interessante e que pode ser celebrado como um ponto de viragem na situação de crise que vivemos. Boas notícias também do lado das exportações portuguesas, que aumentaram 21,4% em junho face ao mesmo mês de 2020 e ficaram mais de 8% acima de junho de 2019. No conjunto do segundo trimestre, as vendas de bens ao exterior ficaram acima do período pré-crise. Finalmente, as primeiras tranches da “bazuca” europeia começam a entrar no país, ativando o Plano de Recuperação e Resiliência.


Numa outra notícia, igualmente relevante, em termos de capital humano, o país registou um número recorde de candidatos ao ensino superior. Em conjunto, todos estes dados poderiam auspiciar um futuro económico mais risonho. Mas Portugal tem desde sempre um problema de organização e outro de criação de valor. Note-se que o facto de celebrarmos a eficiência da nossa campanha de vacinação, mostra quão incomum é fazer “o esperado”.


Numa sociedade eficiente seria a norma os projetos, programas e iniciativas, decorrerem de acordo com o planeado e a exceção seria faltar ao prometido. Contudo, em Portugal a ineficiência é muitas vezes a norma. Será possível alterar esta tendência?


Se o “pool” de capital humano tem melhorado em Portugal, com a taxa de escolaridade do ensino superior da população residente entre os 30 e os 34 anos a atingir os 43% no 4º trimestre de 2020, superando pela primeira vez a meta europeia de 40%, assumida no âmbito da Estratégia Europa 2020, a verdade é que a quantidade de empresas que pode potenciar este capital humano é ainda curta. Não podemos esquecer que 99,7% das empresas portuguesas são PME (o que por si não é incomum face a outros países), mas 96% das empresas têm menos de 10 colaboradores e situam-se em sectores tradicionais, posicionadas na cadeia de valor a montante, com dificuldades em gerar valor acrescentado que possa justificar preços e margens elevadas (que permitam empregar, com salários razoáveis, a mão-de-obra mais qualificada que começa a abundar no país).


Na indústria de moldes esta realidade tem-se feito sentir com uma crescente concentração empresarial (motivada ou por processos de sucessão, ou por dinâmicas de crescimento e fusão), uma maior relevância do conhecimento e da engenharia em todos os processos, que levou a uma necessidade de contratação de recursos humanos cada vez mais qualificados (algo que, entretanto, tem chegado ao “chão-de-fábrica”, com o advento da indústria 4.0).


Uma fatia interessante das empresas deixou de ser um mero subcontratante de maquinação de moldes para serem alavancas no desenho dos produtos finais, contribuindo para a inovação dos seus clientes.


Existem, no entanto, algumas lacunas que terão de ser endereçadas nos próximos anos. A questão da dimensão e concentração continua sem estar completamente resolvida (necessitamos de mais empresas com dimensão global), que possam através dessa dimensão alavancar departamentos de I&D e inovação, que permitam enfrentar os desafios de uma Europa mais industrial e sustentável, mas também mais centrada no conhecimento. Por outro lado, há uma necessidade de ter mais argumentos comerciais, junto das empresas clientes, oferecendo experiências apuradas, desde a cocriação, ao desenvolvimento de gémeos digitais, à manutenção preditiva de moldes.


Para muitos, o marketing industrial (B2B) continua a ser muito distinto do marketing de produtos finais, mas, na verdade, com o conhecimento a passar a ser o principal recurso das empresas (estima-se que 90% do valor das empresas venha dos intangíveis), as duas realidades aproximaram-se.


Um produtor de moldes tem de pensar que entrega mais do que um molde com determinadas caraterísticas técnicas, preço e prazo de entrega. Esta é apenas uma parte do valor entregue. O resto do valor provém de uma experiência intangível, em que pode fazer parte a cocriação do desenho, a sua prototipagem, a avaliação do ciclo de vida desse produto. Também dessa experiência fazem parte as relações entre equipas de engenharia, a capacidade de um gestor de vendas responder a um gestor de compras, de alguém responder a um telefonema, de ser capaz de antever as necessidades do cliente. Tal como num qualquer produto final, o cliente industrial paga uma experiência, que se pretende que ultrapasse as suas expectativas.


Este tipo de pensamento coloca as empresas de moldes, que hoje se diz serem empresas de engenharia, como empresas de tecnologia que desenvolvem experiências de valor acrescentado. Também aqui estamos ainda a meio caminho daquilo que será fundamental para o sucesso da nossa indústria.


Quanto à realidade nacional, nenhum plano governamental parece endereçá-la. Este seria o momento ideal para uma política industrial mais assertiva, que tivesse como objetivo a matriz económica do país, mas no meio das boas notícias, de que tanto precisamos, parece que vamos mais uma vez falhar uma oportunidade, permanecendo como sempre, algures entre o céu e o inferno (económico). Quanto à realidade regional, alguns passos estão a ser dados na direção certa, mas precisamos de uma maior compreensão do futuro que nos espera.





Texto: Vítor Ferreira (Diretor Executivo Startup Leiria e docente no Politécnico de Leiria)

Publicação: Revista Molde 131